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O peso de uma “religiosidade estéril”

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

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“Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. (Mc 7,6)

O evangelho deste domingo seleciona só alguns versículos do cap. 7 de Marcos, carta magna da liberdade cristã, no plano da refeição e do amor (relações humanas). Que todos tenham direito à alimentação e se amem, com todo o coração. Trata-se, pois, de educar e sanar o coração, não através de mais leis, mas através de mais liberdade e verdade de amor. Neste sentido, o relato de hoje nos situa no centro da dinâmica cristã, no lugar onde o(a) seguidor(a) de Jesus, muitas vezes centrado(a) na lei, a partir de seu interior se abre (por impulso da memória de Jesus) à grande liberdade cristã na refeição e no amor.

De fato, para muitos, sua relação com Deus se reduz ao cumprimento de algumas práticas religiosas, à participação em alguns ritos e festas, segundo as normas e tradições estabelecidas por sua própria religião. O ensinamento de Jesus liberta de muitas obrigações e orienta ao culto verdadeiro. É uma mensagem que nos livra de tantas ataduras e ritualismos, da repetição mecânica de tradições e normas do passado, e orienta à novidade de um culto verdadeiro, a partir do coração.

Marcos ressalta que os fariseus e alguns mestres da lei “se reuniram em torno de Jesus”. Não são pessoas interessadas em conhecê-lo. Como fiéis cumpridores da lei, já haviam percebido o perigo que Jesus representava por suas transgressões em relação ao sistema religioso. Vieram de Jerusalém, o centro do poder religioso, para investigar a conduta do Mestre de Nazaré. Tinham reconhecido as coisas extraordinárias que Ele fazia, e tinham tentado desacreditá-lo frente ao povo, atribuindo seus poderes ao “chefe dos demônios”. Querem criar ao redor de Jesus um cerco de suspeitas e rejeição.

Agora, escribas e fariseus unidos encontram outra transgressão da lei nos discípulos de Jesus: eles comem sem lavar as mãos. Convivendo com Jesus, eles tinham assimilado sua liberdade. Na multiplicação dos pães (relato anterior), Jesus ofereceu pão para a vida de todos, sem exigir purificações prévias, porque a pureza e a cura vem d’Ele. Mas, para a comissão investigadora vinda de Jerusalém, comer sem lavar as mãos não era uma falta menor. Estava em jogo todo um sistema de separação entre o que é puro e o que é impuro. Há alimentos puros que todos podem comer, e outros impuros, que são proibidos. E as pessoas precisam se purificar antes de comer. Assim ensinaram os antepassados e assim manda a lei. Segundo os encarregados da religião, não se pode relativizar a autoridade sagrada da tradição.


A reação de Jesus é muito dura, e põe em evidência que a relação com Deus não passa através do uso de alimentos puros ou ritos de purificação, de culto formal e vazio. Os escribas e fariseus são a encarnação dos destinatários da denúncia profética de Isaías: “este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Os responsáveis da instituição criaram, em nome de Deus, um sistema de poder, com ritos que os privilegiavam, obrigações que discriminavam e separavam, e um controle social intolerável. Os pobres não podiam cumprir com todas as normas, e por isso eram considerados “povo maldito”.


Uma consequência muito clara que aparece aqui consiste em que, com muita frequência, na conduta de muitas pessoas há uma enorme distância entre a observância dos ritos sagrados, por uma parte, e a fidelidade à honestidade, à bondade, à justiça... por outra parte. E aqui nos deparamos com tantas pessoas que são fielmente observantes das leis e ritos religiosos, mas, ao mesmo tempo, são pessoas que são profundamente desumanas na relação com os outros; deixam muito a desejar em sua conduta ética.

Segundo os relatos evangélicos, é visível que Jesus não teve enfrentamentos nem com os romanos, nem com os pecadores, os samaritanos, os estrangeiros, etc... Os conflitos de Jesus surgiram precisamente com os mais fiéis cumpridores da religião: sacerdotes, mestres da lei e fariseus. Jesus não rejeitou o culto religioso. O que Jesus fez foi deslocar o centro da religião e esse centro não está nem no templo e nem nas suas cerimônias, nem no sagrado e nem em seus rituais. O centro da experiência religiosa, para Jesus, está em fazer o que fez o mesmo Deus, que sempre “desce” e se aproxima de todos os seus filhos e filhas. Deus está presente em cada ser humano, seja quem for, pense como pense, viva como viva. Só reconhecendo esta realidade surpreendente e vivendo-a, como viveu o próprio Jesus, estaremos no caminho que nos leva ao centro do verdadeiro culto a Deus.

Os líderes religiosos apresentam “mãos limpas” porque não as usam para o serviço aos outros; são “mãos assépticas” porque não se “contaminam” no contato com as pessoas. Eles se mostram incapazes de ver as mãos como mediação para uma nova humanização, reduzindo-as e atrofiando-as devido a seus esquemas religiosos e morais. Suas mãos carregam censuras, traficam destruição, encarnam a falsidade... Suas mãos são temidas porque fecham o futuro, excluem e espalham o medo, pesam porque julgam... Aqui, no embate com Jesus, eles não fazem nenhuma referência ao anterior evento da “multiplicação dos pães” e nada dizem sobre a refeição de Jesus com a multidão; eles não se preocupam com aqueles que não comem, mas observam a compostura daqueles que comem. Sua visão míope foge do essencial para permanecer no periférico. Desviam a atenção para o terreno de seus domínios, uma moral superficial, descompromissada. Assim, pois, centram sua atenção em alguns dos discípulos para captar uma irregularidade em sua forma de comer, pois eles comem com “mãos impuras”.


Jesus nos coloca a todos diante deste dilema: o que vem em primeiro lugar, os ritos religiosos ou o compromisso com a vida dos mais vulneráveis e excluídos? O mais importante é o ritual religioso ou a experiência humana de encontro, convivência, serviço...? Para Jesus, o culto verdadeiro a Deus não passa pelas cerimônias pomposas, centradas na exterioridade e aparência, mas pelo coração e pela vida. É uma mensagem que Marcos envia também à sua comunidade.
Jesus insiste, com uma indicação que quer ser universal: “Escutai todos e compreendei”. Todas as coisas são puras. A impureza, o que separa de Deus e dos outros, não vem dos alimentos que são comidos, daquilo que vem de fora e vai ao estômago.


A impureza pode sair só de dentro, do centro da pessoa, do coração do ser humano. Isso impede a relação sadia com Deus, ferindo as relações humanas. O coração do ser humano é capaz do melhor (compaixão, solidariedade, bondade, serviço, amor...) mas, quando petrificado e fechado, é capaz do pior (más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, devassidão, inveja, calúnia, orgulho...). São os chamados “pecados de raiz”, ou seja, endurecimentos, fechamentos e fixações... que impedem a energia vital, a misericórdia de Deus, fluir livremente. São bloqueios e empecilhos colocados por nós mesmos e que interceptam a relação com Deus, com os outros e com as criaturas, portanto, com a plenitude da vida, e cortam nossas próprias potencialidades de vida.
Quando falamos de “pecados de raiz” queremos destacar a necessidade de uma conversão radical.


Texto bíblico: Mc 7,1-8.14-15.21-23

Na oração: Deixe-se conduzir pelo Espírito; graças à sua presença, o caos interior se transformará em cosmos (beleza e harmonia) que se expressará em compaixão, perdão, tolerância, acolhida...
— Seus pensamentos são poluídos? Suas palavras são ácidas? Seus gestos são agressivos? Os entulhos
– ódios, julgamentos, inveja, intolerância...
– se amontoam em seu interior?
— Permita que o Espírito transite livremente pelos espaços mais sombrios do seu eu profundo, realizando uma verdadeira “ecologia interior”.
— Recolha-se no mais íntimo de si mesmo, mergulhe em seu oceano de mistério e descubra, lá no mais profundo, o Ser Vivo que fundamenta a sua identidade e seu ser verdadeiro.


Ilustração: 22º Domingo do Tempo Comum, Stefano Pachi (Liturgia Diária – Paulus – ago.2021, p.107)