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O deserto desmascara nossas tendências egóicas

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

“O Espírito levou Jesus para o deserto” (Mc 1,12)

1º Domingo da Quaresma — Ano B

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O 1º. dom. da Quaresma nos conduz ao deserto; ali, na profunda solidão e silêncio, Jesus teve uma experiência fundante, que marcou profundamente sua vida, rompendo com a vida cotidiana anterior, em Nazaré. Enfrentou o que todos nós enfrentamos continuamente: todos nascemos e somos movidos por uma forte tendência a buscar poder, prestígio, riqueza; esta semente vai crescendo e se expandindo por todos os meios possíveis. Prestemos atenção naqueles que fazem da busca do poder, da riqueza e da vaidade, o centro de suas vidas, para ver os efeitos devastadores deste veneno, presente dentro de nós e no nosso contexto social. São as chamadas “tendências egóicas” que rompem toda possibilidade de viver a fraternidade e a acolhida do diferente.


Quando nos deixamos determinar pelo poder, para ter parte no “banquete de morte” dos poderosos, podemos chegar a nos ajoelhar diante deles e “adorá-los”. Diante desta perene tentação, Jesus, no deserto, vem nos diz: o amor e o serviço são duas atitudes que ativam e elevam a vida. Quando queremos tirar os obstáculos de nosso caminho para tornar nossa vida mais fácil, procuramos transformar “as pedras em pães” com o que temos à mão: ameaças, extorsão, mentiras, ódios... Jesus vem nos diz: “que a Palavra sustente tua vida!” Quando nos sentimos tentados a manipular Deus a nosso favor, queremos negociar e “comprá-lo” com nossos ritos e observâncias, acreditando que Ele está em dívida conosco. Jesus vem nos convidar a viver como filhos e filhas, sem tentar a Deus.

Para facilitar o esvaziamento dos “impulsos egóicos” e reordenar a vida, a liturgia nos convida a buscar inspiração junto a Jesus, durante sua estadia no deserto. Ali, Jesus “vivia entre as feras e os anjos o serviam”; o texto grego e latino diz “animais selvagens”. Podemos entender a maneira como Jesus se situou na vida, em meio às “forças” que condicionam o ser humano, umas boas (Espírito, anjos), outras más (“demônios”, “feras”). O relato do evangelista Marcos também faz alusão aos tempos idílicos do Paraíso, onde a harmonia entre seres humanos e a natureza inteira era total. Recordemos que o tempo messiânico fora anunciado como uma etapa de convivência harmoniosa entre seres humanos, os animais, a natureza...


Além disso, as tentações acompanharam Jesus durante toda sua vida, como apontam claramente os Evangelhos. Isto quer dizer, obviamente, que o discernimento que Jesus teve de fazer sobre sua própria vida e sobre sua missão, não foi experiência de um dia ou de um momento. O Jesus dos evangelhos é Aquele que busca, que reza, que discerne, que se vê na encruzilhada de optar entre várias possibilidades, que se retira ao deserto para descobrir qual é a Vontade do Pai, que elabora progressivamente seu projeto global e passa depois às opções concretas. Tudo isso iluminado e orientado a partir de uma opção fundamental: a opção pela solidariedade com todos aqueles que em suas vidas só experimentaram a exclusão. E isto, mantendo-se fiel até o final, mesmo às custas de encontrar-se em situações de conflitos e perseguições, até culminar em sua morte na Cruz.

Jesus não sai fragilizado de seu deserto. Sai tão fortalecido que seu compromisso posterior, fruto de sua relação direta com o Abba, que transforma a história em um antes e um depois. Portanto, quando nos perguntamos por que foi Jesus tão liberal naquilo que se refere às leis, normas e tradições religiosas, e porque foi tão radical a respeito da justiça, do amor e da proximidade junto aos pobres, doentes e excluídos, a resposta é clara. O segredo de tudo está na opção fundamental que Ele assumiu no batismo e a manteve durante suas tentações, ou seja, a opção pela solidariedade como meio e caminho para realizar sua missão.


O relato evangélico deste domingo termina nos dizendo que, após o batismo e o retiro no deserto, Jesus caminhava pela Galileia “proclamando a Boa Notícia de Deus” (Mc 1,14). Para Jesus, Deus é uma presença amistosa e próxima que faz viver e amar a vida intensamente. Jesus vive Deus como o melhor amigo do ser humano: um Deus “Amigo da vida”. O que contagia a todos é sua experiência de Deus como um “Mistério de bondade” que nos liberta de tanto peso e de tantas culpas, alimentadas por um legalismo e moralismo estéreis que acabam obscurecendo Seu rosto compassivo. Quanta alegria se despertaria em muitos se pudessem ver em Jesus os traços do Deus da vida! Como se acenderia sua fé se pudesse captar com olhos novos o rosto de Deus encarnado em Jesus! Muitos homens e mulheres de fé frágil, vacilante e quase apagada necessitam hoje escutar a notícia de um Deus bom e amigo: o Deus de Jesus Cristo, que só quer uma vida mais digna e feliz para todos. Tudo aquilo que impede acolher a Deus como graça, libertação, perdão, alegria e força para crescer como seres humanos não leva dentro a “Boa Notícia de Deus” proclamada por Jesus.


Crer no Deus “amigo da vida” nos compromete a viver a “amizade social” como atitude oblativa. Neste tempo quaresmal, a Campanha da Fraternidade nos motiva a viver a amizade social como um estilo de vida, fundado no modo de viver de Jesus. Viver como Jesus significa encontrar-se com “o mundo do sofrimento, da injustiça, da fome... e não ficar indiferente”. A fraternidade, que nasce da compaixão, nos leva a reconhecer no outro uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação.

A amizade social se enriquece quando se deixa pautar pelo diálogo fecundo, pela cultura do encontro, pela paciência e tolerância com o diferente, pela renúncia a instrumentalizar e descartar o outro simplesmente porque “vive, pensa, crê, sente e ama de maneira diferente”.

O(a) discípulo(a) missionário(a) não é aquele(a) que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável; o mundo já não é percebido como ameaça ou como objeto de conquista, mas como dom pelo qual Deus mesmo se faz encontrar. O mundo não é lugar da exploração e da depredação, mas é o lugar da receptividade, da oferenda e do encontro inspirador. Isso pede de todos nós uma atitude de abertura e de deslocamento frente ao outro, o que implica colocar-nos em seu lugar, deixar-nos questionar e desinstalar por ele... Importa, pois, re-descobrir com urgência a fraternidade como valor ético e como hábito permanente de vida.

Corremos o risco de viver em mundos-bolha; podemos construir nossa vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a nós e dentro de situações estáveis. É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que nos mantenhamos dentro dos limites politicamente corretos. Todos podemos terminar estabelecendo fronteiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabamos tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitados, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. É urgente que nos deixemos “empurrar ao deserto” pelo mesmo Espírito de Jesus, para sermos mais fraternos e humanos. Vivamos com “sabor” a travessia quaresmal!


Texto bíblico:
Mc 1,12-15


Na Oração:

O Espírito de Jesus continua nos conduzindo ao deserto para desintoxicar-nos de todo resquício de poder, vaidade, indiferença, ódio, preconceito...; de tempos em tempos, precisamos nos deslocar para o deserto, para o lugar de discernimento das diferentes vozes que nos movem por dentro: vozes de morte (egóicas) e vozes de Vida. É na escuta atenta do Espírito que seremos capazes de tomar decisões oblativas, descentradas, com sabor de Reino, e a dar passos em direção ao amor incondicional.
— O que prevalece e determina sua vida: as más tendências ou os sentimentos mais elevados, as vozes de morte ou as forças de vida?
— Que experiências de deserto sustentam sua vida?



Ilustração: GRAVURA: Tentação no deserto, Stefano Pachi (Liturgia Diária – Paulus – fev.2024, p. 18).


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