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A escuta no “divino ofício do pastoreio”

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

“As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. (Jo 10,27)

4º Domingo da Páscoa

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A imagem do Bom Pastor está carregada de simbolismos interessantes, embora não tenha tanto impacto no contexto urbano em que vivemos, onde os valores da igualdade e democracia parecem estar em contradição com a imagem de rebanho conduzida por um Pastor. No entanto, para muitos, as imagens do “cercadinho” e a do “gado manipulado” parece não causar tanta estranheza. Jesus não foi, nem quis que os seus seguidores fossem “ovelhas e cordeirinhos” submetidos aos controles de seus pastores, nem obrigados a cumprir normas e costumes impostos por aqueles que se dizem responsáveis pelo rebanho.


Rebanho não é anulação das identidades, nem uniformidade no modo de pensar, agir e ser. Cada pessoa é diferente, única, com experiências, expectativas, medos, ansiedades, desejos, fortalezas e fraquezas, com seu ritmo e modo próprios de viver. “Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem ao Evangelho o melhor possível no meio de seus limites e podem desenvolver seu próprio discernimento diante de situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, mas não pretender substitui-las” (Papa Francisco – Amoris Laetitia).


Jesus, no ministério do seu pastoreio, ensina e atua com “autoridade”, e não como os escribas e fariseus. Ele revela o dom de ativar a autonomia em cada pessoa, de devolver-lhe sua dignidade, de remetê-la a si mesma, de ajudá-la a se conectar com seu ser profundo, com aquilo que é mais divino no seu próprio interior. Pastoreio que possibilita cada um viver em plenitude consigo mesmo.


Jesus é Pastor porque não impõe nenhuma doutrina nem complica a vida das pessoas com a carga da lei; Ele é Pastor porque, ao contemplar os rostos das pessoas, vê, no interior delas, ricas possibilidades humanas, ainda latentes; Sua presença inspiradora faz emergir o melhor e mais humano que há no coração de suas “ovelhas”, reconstruindo a humanidade ferida e abrindo sentido para sua existência. O “divino pastoreio” significa trazer para fora ou extrair a verdade da pessoa (sua identidade), para que ela consiga ter uma visão ampla de si mesma e realizar-se da melhor maneira possível, ativando suas potencialidades, dons e recursos.


Nesse sentido, o pastoreio de Jesus não tinha nada a ver com poder que se impõe, nem liderança que arrasta, nem controle das consciências. Suas palavras e suas atitudes ativavam a vida; elas despertavam tudo o que estava atrofiado e adormecido no ser humano. Aqueles que escutavam sua voz sentiam que havia algo de vida eterna, que alimentava e dava sentido à própria existência.


As palavras do Bom Pastor transmitiam uma sensação de pureza às pessoas, pois elas passavam a se sentir em harmonia consigo mesmas e conectadas com a nova vida que brotava do interior. Jesus não só transmitia um novo ensinamento, senão que criava uma relação nova com o povo e de uns com outros, segundo o espírito do Reino. Nesse ministério do pastoreio, a palavra de Jesus manifestava-se cordial, terna, calorosa, pois tocava o coração das pessoas; ela se revelava criadora de futuro ao transformar por dentro a pessoa que a acolhia. Jesus mesmo mostrava-se como a “Voz” do Pai que se expressava em palavras de vida e que o movia a se aproximar de todas as pessoas, revelando-lhes a dignidade infinita que cada um carregava dentro de si.


Essa era a mais nobre missão de Jesus como Pastor: ensinar os homens e as mulheres para que fossem eles(elas) mesmos(as) em liberdade, para que descobrissem e ativassem a verdade por dentro, sua verdade fontal, para que todos se guiassem e se ajudassem e, assim, fossem e vivessem em plenitude. Com sua voz instigante e mobilizadora, Jesus foi semeando humanidade, despertando o amor criativo, que se fazia vida naqueles(as) que o escutavam e acolhiam sua palavra.

Assim, o “divino pastoreio” evoca a verdade do ser humano, comporta uma provocação, uma proposta que o move a potencializar ao máximo seus recursos internos, revelando aquilo que ele é capaz. Deixar-se conduzir pela “Voz do Bom Pastor” significa uma autêntica experiência e que tem efeitos explosivos: é novidade que surpreende e às vezes assusta, cria novas expectativas e solicitações, traz mobilização, pede mudança dos costumes e dos velhos estilos de vida, realimenta a liberdade criativa, leva adiante o equilíbrio de cada um em direção a horizontes imprevisíveis, abre uma nova fase de vida... Aos olhos do Pastor da Galileia nada é mais perigoso para o espírito humano do que vidas satisfeitas, acomodadas, sem desejos, sem o dinamismo das esperas e o desassossego das buscas; corações quietos, indolentes, medrosos, sem iniciativa, sensatamente contentes com aquilo que são e têm, conduzem à morte. Pelo contrário, como as vidas são repletas de razões, criatividade, entusiasmo e vitalidade quando se inspiram no modo de ser e viver do Bom Pastor! Por isso, sua voz merece ser “escutada” para que ela tenha ressonância no nosso próprio interior e inspire o nosso modo de ser e viver.


Inspirado(a) e identificado(a) com o Bom Pastor, todo(a) seguidor(a) se reveste desse “ministério do pastoreio”. Nesse sentido podemos afirmar: “como seguidores(as) do Bom Pastor, todo somos pastores(as) e exercemos esse ministério o tempo todo”. Tudo começa com a escuta; por sua vez, só escuta quem se encontra numa atitude de busca. Quem crê estar em posse da verdade, deixa de buscar; blindado a qualquer questionamento, permanece instalado na “zona de conforto” de sua comodidade. A pessoa que entra em sintonia com a Voz do Divino Mestre, começa escutando. A escuta requer uma disposição de abertura inicial, que implica flexibilidade para permitir inclusive que as convicções prévias possam ser removidas. A escuta revela seus próprios segredos para quem sabe desnudar-se nela.

Quando, aquilo que “escutamos”, encontra eco em nosso interior, reconhecemos estar em contato com nosso eu verdadeiro e em profunda “sintonia” com a pessoa que nos fala. Isto é o que acontecia com os seguidores de Jesus e o que continua acontecendo conosco quando lemos o evangelho: ao perceber que a palavra de Jesus “lê” nosso interior, nós a reconhecemos como própria e “comungamos” com sua pessoa, na unidade de vida que transcende o tempo e o espaço.

É preciso, então, educar os ouvidos para aprender a escutar, escutar-se, e assim poder dialogar. “Escutar”, do termo latino “auscultare”, implica atenção e concentração para entender e poder ajudar. Consequentemente, escutar as palavras e os gestos, os silêncios, as dores e raivas, os gritos de insegurança e de medo; escutar os tímidos e os sem voz, escutar os gemidos de Deus na dor dos pobres e sofredores; escutar o que se diz e o que se cala e como se diz e por que se cala; escutar também as ações, a vida, que com frequência negam o que se proclama nos discursos. Muitos desfazem com seus pés o que buscam construir com suas palavras.


Texto bíblico: Jo 10,27-30


Na Oração: Dar o maior e mais amplo espaço possível ao Pastor interior e deixar-se conduzir por Ele em todas as circunstâncias, em todo tempo e situa-ções da vida. Ele o(a) conhece como ninguém e como ninguém faz emergir tudo aquilo que o Pai colocou em seu coração como criatividade, imaginação, intuição...
— “Ex-ponha-se” diante d’Ele, deixe ressoar sua voz em seu interior; deixe-se transbordar, surpreender pela presença d’Aquele que mobiliza seus melhores recursos.


Ilustração: 4º Domingo da Páscoa, Stefano Pachi (Liturgia Diária – Paulus – mai.2022, p. 37)