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José de Nazaré: “sombra do pai celeste na terra”


Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

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Ilustração: São José, pai legal de Jesus Cristo, por François Jean Baptiste Benjamim Constant (1845-1902). Óleo sobre tela (1890) – Igreja de São Martinho, Villers-sur-Mer, França.


“O escritor polaco Jan Dobraczynski, no seu livro A Sombra do Pai, narrou a vida de São José em forma de romance. Com a sugestiva imagem da sombra, apresenta a figura de José, que é, para Jesus, a sombra na terra do Pai celeste: guarda-o, protege-o, segue os seus passos sem nunca se afastar d’Ele” (Papa Francisco – Patris Corde)



O saber estar “à sombra” para não fazer sombra a outros, o escutar e discernir a vontade divina, a preocupação pelo bem-estar dos demais, o silêncio contemplativo e radical que lhe permitia aprofundar na realidade, a prontidão na “obediência à fé” e a disponibilidade sem fissuras à graça, são as qualidades com as quais José entrou em sintonia com Deus, dando sua contribuição decisiva ao mistério da salvação. Por isso, ele se revela como inspirador a todos nós. José, foi aquele que se abriu ao Deus surpreendente e deixou-se conduzir por Ele. Dele não se diz muito nos evangelhos, mas o que ali se diz nos revela uma presença surpreendente, capaz de ver mais além do cotidiano e estabelecido. Presença que aponta para uma outra presença, a de Jesus.

Seria um equívoco considerar José uma espécie de marionete nas mãos de Deus, que lhe atropelara a liberdade. A catequese evangélica tem como ponto de partida a convicção de ser possível o ser humano “escutar e praticar” a vontade de Deus, mesmo quando lhe é pedido algo, à primeira vista, superior à capacidade de suportar. José não dá mostras de agir a contragosto, acuado, pressionado ou duvidoso. Age com a liberdade de quem sabe o que faz, colocando-se à inteira disposição de Deus, com total generosidade. Ele conhecia as bases em que se construía sua relação com Deus, donde sua disposição para radicalizar a vivência da fé.

Segundo a revelação bíblica, Deus se deixa “transparecer” na Criação e na humanidade. Em tudo, encontramos “marcas” de sua presença e de sua ação. Todos os bens e graças “descem do alto”, como o sol desce com seus raios. Em todas as coisas aparece a sabedoria, a palavra, o dom de Deus; em todas as pessoas transparece a bondade, o cuidado, a compaixão do Deus Pai/Mãe.
José, na sua vocação paterna, torna-se “diáfano” de Deus Pai (deixa transparecer a imagem paterna/materna de Deus). Através do seu modo de ser e de agir, carregado de silêncio inspirador, José, não só revela uma profunda sintonia com Aquele que o chamou a assumir a vocação paterna, mas deixou “fluir”, no cotidiano e na simplicidade de sua vida, os atributos d’Aquele que o conduzia. O coração de José passa a pulsar em acorde com o coração de Deus Pai: a Paternidade divina flui na paternidade humana.
Deus Pai encontrou liberdade para ativar e tornar visível em José as características próprias de um pai:
“Não se nasce pai, torna-se tal… E não se torna pai, apenas porque se colocou no mundo um filho, mas porque se cuida responsavelmente dele. Sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outrem, em certo sentido exercita a paternidade a seu respeito” (Papa Francisco, Patris Corde)
Porque estava presente a Deus, José fez-se presente nos momentos decisivos da Família de Nazaré, bem como fez-se presente na vida das pessoas. Uma presença que faz a diferença: presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de um pai que acompanha com ternura.
Sua presença não era presença anônima, mas comprometida; presença que é “música calada” nos lugares cotidianos e escondidos, que sabe enternecer-se e escutar as inquietações que procedem desses lugares. Uma presença que descobre o próximo no próximo, que sabe resgatar a solidariedade na vida cotidiana; uma presença que se manifesta na ausência de recompensa ou de interesse próprio.
Mas, há algo que podemos trazer à luz da vida de José em Nazaré: que na lentidão do dia-a-dia, da monotonia e do lar, Deus preparava o caminho. Pouco a pouco, a fogo brando. Em meio à rotina de uma vida simples, José foi fazendo-se perguntas, esperando as respostas, ouvindo o que seu coração lhe dizia e discernindo o que Deus queria dele. Ano após ano, em um pequeno lugar, detrás de uma vida que nada tinha de diferente das outras vidas.

Como homem, José precisou passar pelo processo do amadurecimento lento, lançando mão de todos os recursos que encontrou em seu próprio interior e ao seu redor.
Cozinhar a fogo lento é bem difícil neste mundo de pressas e imediatismos. E hoje, mais do que nunca, se fazem necessários os “tempos de Nazaré”, esses tempos de aparente rotina nos quais se alimentam os sonhos, onde se forjam as vontades, se domam as impaciências, se aclaram os caminhos, se discerne a voz, se dissipam as névoas do caminho…  Em definitiva, esse tempo onde nosso canto e o de Deus se afinam juntos para formar uma única melodia e fazê-la soar no mundo.

José, em Nazaré, continua sendo luminoso e inspirador para todos nós, num momento em que as transformações são rápidas e exigem de nós maturidade, aprendizado, diálogo, novas expressões de fé…
A família de Nazaré evoca o dia-a-dia da nossa paternidade/maternidade, onde os acontecimentos extraordinários são pouquíssimos. Chega um momento em que a vida cristã parece muito rotineira. Nazaré alimenta e prolonga a paternidade de Deus no cotidiano e comum da vida. Nazaré é a escola na qual aprendemos a descobrir a presença de Deus na vida “tal como ela é”, no trabalho das pessoas e nos rostos daqueles que estão ao nosso lado. No lugar onde nos cabe viver é onde o Senhor nos ama e nos convida a descobri-lo.
Mas Nazaré é também um alerta contra a rotina. Cada dia é preciso enraizar mais ainda nossa vocação paterna/materna no coração compassivo de Deus Pai/Mãe. Por isso Nazaré é o lugar da perseverança, da fidelidade, de dizer cada dia um novo “sim” ao Senhor. No cotidiano há momentos favoráveis e momentos de crise. Mas o cotidiano é a oportunidade para ampliar o olhar para a frente. Nazaré pode ser um lugar de esperança, de onde se pode vislumbrar um futuro melhor.

Nazaré evoca também a comunhão dentro da diversidade. Num pequeno povoado as pessoas são tão diferentes como numa cidade grande, mas a vulnerabilidade delas nos faz despertar a consciência da necessidade que temos uns dos outros. Numa comunidade pequena os problemas de um afetam os outros. Suas fragilidades se fazem fortes quando se apoiam mutuamente; suas solidões que se unem criam comunhão. Vivamos em nossas comunidades a grandeza de sermos plenamente humanos!


A presença silenciosa, original e mobilizadora de José desvela e ativa também em nós uma presença inspiradora, ou seja, descentrar-nos para estar sintonizados com a realidade e suas carências. Tal atitude nos mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações; escutar relatos que trazem luz para nossa própria vida; ver a partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar nossas pretensões absolutas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao nosso redor; escutar de tal maneira que aquilo que ouvimos penetre na nossa própria vida; implicar-nos afetivamente, relacionar-nos com pessoas, não com etiquetas e títulos; acolher na própria vida outras vidas; histórias  que afetam nossas entranhas e permanecem na memória e no coração.


Disto se trata: aprender dos outros; recarregar nossa própria história de um horizonte diferente, no qual cabem outras possibilidades e outras responsabilidades; descobrir uma perspectiva mais ampla que ajuda a formular melhor o sentido de nossa própria vida.
Em José descobrimos a verdadeira vocação de todo ser humano. Ser como José não é uma simples meta a alcançar, pois partimos da mesma realidade da qual ele partiu. O que estamos celebrando, neste “ano de S. José”, nos indica o ponto de partida de nossa trajetória humana, não o ponto de chegada.


Texto bíblico: Lc 2,21-40 / Lc 15,11-32 / Lc 10,25-37

Na oração: Considerar como tudo o que você é e possui provém de Deus Pai, se origina e se enraiza n’Ele.
Considerar, como deve, de sua parte, amar as pessoas de tal maneira que se faça transparente, para que através de você os outros possam conhecer quem é Deus.
— Você é chamado a deixar “transparecer” a imagem de Deus Pai, através da sua bondade, justiça, serviço…