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José na oficina de Nazaré

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Pe. Adroaldo Palaoro, SJ


“Um aspecto que caracteriza São José é a sua relação com o trabalho. São José era um carpinteiro que trabalhou honestamente para garantir o sustento da sua família. Com ele, Jesus aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho”. (Papa Francisco – Patris Corde)



A oficina é esse espaço simbólico onde tudo é criado, concertado, refeito… A oficina é o lugar da recriação, da criatividade. É ali onde os projetos se realizam. E ali está o labor e a criatividade do artesão.
O amor e a sagacidade criativa do artesão estão no refazer o que foi estragado, no encontrar saídas para resolver o difícil, para ajustar o desajustado. Na oficina entra a matéria informe e sai modelada, transformada. De certa maneira, uma oficina é um lugar onde o inútil se torna útil, o feio se torna formoso, o que estava quebrado consegue funcionar.
Uma especial sabedoria e bondade envolve o artesão. Para ele não há nada impossível. Está aliado, cordialmente aliado, com o material que cai em suas mãos e aliado com seus proprietários.
O artesão “passa fazendo o bem”. Poucas vezes tem tempo para dedicar-se ao que é especificamente “seu”, mas quando serve, faz “seu”, ou como se fosse seu, o que é dos outros. O artesão, por vocação, encontra na fadiga seu prazer; sabe-se e sente-se criador. Em qualquer lugar vai deixando sua marca. Encanta-lhe a obra bem feita e rejeita o serviço mal feito. O artesão é como o médico das coisas; sua oficina é como um hospital. A bondade de seu coração se materializa em tudo o que faz.
As necessidades das pessoas, suas legítimas urgências, não lhe deixam tempo nem para descansar. O artesão, que tem capacidade para a compaixão, rompe seus horários em favor dos que estão necessitados. O artesão cuida das pessoas da comunidade, de seu bem-estar.


E ele ensina o ofício a seu filho.
Por isso, a oficina é também escola; ali o carisma é transmitido. O filho, talvez não recorde quando começou a primeira lição, mas, pouco a pouco, vai familiarizando-se com o trabalho transformador. O pai vai lhe ensinando os pequenos segredos que tornam fácil o que parece difícil, que deixa sua assinatura única em tudo o que ele faz. O pai se converte em mestre, em transmissor de sabedoria, corrigindo, elogiando…
Os filhos diligentes estão em boas condições e em forma para superar o mestre; o pai nunca desaparecerá, pois seu espírito criativo impregnará a oficina.


Nazaré e sua oficina foi para Jesus uma parábola trinitária. José, o artesão que lhe ensinou e o treinou para fazer suas mesmas obras, era o símbolo vivento do Abbá. Maria era a presença inspiradora, a que mantinha viva a chama do amor e da criatividade, a que transformava a oficina em lar e em seio fecundo. Era ela o ícone vivente do Espírito. E Jesus, o aprendiz. E ali, na oficina de Nazaré, Jesus se exercitou na Redenção. Não lhe foi difícil passar de “artesão de coisas” a “artesão da humanidade”, passar da “oficina de Nazaré” à “oficina do Evangelho”. José, o artesão de Nazaré nos ensina o valor das coisas cotidianas quando são feitas com dedicação e carinho. Nesta “ocultação”, estava assumindo a condição da imensa maioria dos mortais deste mundo, dos homens e mulheres “comuns”, daqueles que vão trabalhar ou estão sem emprego, daqueles que precisam “ganhar a vida”, porque na vida não encontram seu lar, daqueles que são pura estatística…
Na sua vida em Nazaré, José nos convida a entrar na sua casa e em sua oficina para aprender d’Ele e com ele os valores próprios de uma família trabalhadora.


Nazaré é o sinal da “epifania” de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples, é o sinal do sorriso de Deus que se faz visível nos espaços comunitários.
A “vida em Nazaré, coloca em evidência nossas motivações e nossos valores mais profundos.
É a importância do não importante. O importante é ser significativo e não importante!
É preciso atenção com os critérios do mundo que busca os primeiros lugares, o poder, a fama, a eficácia acima de tudo, o trabalho explorador… Não é o trabalho que nos faz importantes, mas somos nós que fazemos qualquer trabalho ser importante, quando ele é realizado na perspectiva do Reino de Deus. Todo trabalho é nobre, seja ele o de cinzelar estátuas ou o de esfregar o chão.
É o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam significativas ou não.
Na escola da vida, todos somos aprendizes.


Precisamos alimentar uma outra relação com o trabalho no sentido de assumi-lo como cooperação com o Deus trabalhador e com tantas pessoas tocadas pela sua graça. Uma relação que permita nos distanciar das cargas, ativismos, tarefas estressantes… e viver o trabalho com humor e criatividade.
Uma relação que nos ajude a desfrutar do trabalho, apesar da sua intensidade.
Poderíamos assumir um tipo de trabalho mais semelhante ao do artista, que se esmera em sua peça musical, literária ou pictórica, mas que se enriquece e se expande na sua obra.
Por meio do trabalho poderemos conhecer nossa própria interioridade projetada sobre a obra e, ao mesmo tempo, a obra realizada torna-se o espelho do nosso próprio rosto; contemplar-nos a nós mesmos no trabalho realizado e, com júbilo, podermos exclamar como o Criador: “E viu que era bom!”
O fundamento do ser humano não é o seu trabalho, sempre limitado e pobre, mas o amor criativo e redentor de Deus que se expressa em seu trabalho. O ser humano “é criado… e é criativo”; ele se realiza no trabalho e Deus pôs a Criação nas mãos d’ele para que a aperfeiçoasse e a levasse à plenitude. É no trabalho que a pessoa encontra o sentido de sua vida e o modo de colaborar com o bem-comum.


A presença de Deus no mundo é ativa e dinâmica: Deus ama atuando em nossa história.
Tudo está sendo construído e reconstruído por Deus. Deus trabalha em todas as coisas.
Ele é a força inesgotável de onde brota todo o trabalho do mundo. Deus continua fazendo tudo novo.
Diante do “Deus trabalhador” o ser humano responde com um trabalho criativo; ele se sente chamado a trabalhar a serviço do Senhor, para sua maior glória.
Assim, aquele trabalho pesado, arrastado, sem muito sentido… de repente fica leve, transparente e carregado de utopia. Deixa de ser “tri-palus” (instrumento de tortura) para ser “poiesis” (poesia), ou seja, ação criativa, entusiasmo criador, inspiração, intuição…
Trabalho que se faz com amor; trabalhar com a mesma intenção de Deus; trabalhar com Deus na mesma direção, fazendo as mesmas obras que Deus está fazendo, ou seja, aperfeiçoando a Criação.


Nesse sentido, o melhor seria chamar o trabalho de “labor”, e o ato de trabalhar de “elaborar”.
O ser humano se elabora como tal, ao mesmo tempo, que elabora a natureza. Ele luta, cansa-se, afadiga-se, esforça-se, esmera-se… mas o trabalho o rejuvenesce, ativa-lhe energia e entusiasmo, alegra-se com o fruto…
Ele vive e delicia-se do e com seu trabalho.
Evangelizar o mundo do trabalho significa escutar o Criador que nos convida mais à fecundidade (criatividade) do que à eficácia. Convém não confundir uma com outra. Enquanto a eficácia quebra as pessoas e não respeita as comunidades, a fecundidade/criatividade acomoda-se aos ritmos naturais e faz crescer a comunidade. “Sede fecundos!”, é o convite do Criador que continua ressoando em nosso interior.


Texto bíblico: Gn 1 / Jo 5,15-20 / Mt 20,1-16 / Mc 6,1-6 / 2Ts 3,6-12

Na oração: dar sentido de amor e profundidade ao trabalho; através do trabalho, servir a Deus por puro amor;
— ser contemplativo na ação: o trabalho como lugar do encontro  com Deus.
— Como é a seu trabalho cotidiano: rotina e repetição ou desafio e criação?
— Seu serviço na Igreja: ativismo ou “ação discernida”? “tarefismo” ou “co-labor” (trabalhar com…)?

Ilustração: Vida escondida em Nazaré! (Franco Verri)