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Homilia – Vida Consagrada.

Assembléia da CRB-SP - 12 de setembro de 2021

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Queridos irmãos e irmãs, consagrados e consagradas.

Nesta manhã nos reunimos para encerrar nossa Assembleia Eletiva, que teve como tema: Cultivar a mística profética sapiencial e, ao mesmo tempo, agradecermos a Deus, por mais uma etapa de missão da coordenação que a CRB do Estado de São Paulo, realizou em nossa Igreja. Deus seja louvado pela diretoria que termina este mandato e pelos corajosos religiosos que iniciam esta nova missão.


Grande parte dos que aqui estão, são coordenadores de comunidade, líderes, que têm uma missão clara de ajudar nossos consagrados a serem cada vez mais seguidores de Jesus Cristo e testemunhas do Evangelho.

Vivemos um tempo difícil de pandemia, ou início do pós-pandemia. Este tempo está marcado por diversas situações que atingem a todos nós religiosos (as):
“Estamos diante de uma globalização causada por um vírus, situação pela qual ainda não tínhamos passado. As crises econômica, política e ambiental não são novas, mas foram aprofundados pela Covid-19. O sofrimento causado pelo desemprego e pela precariedade das condições de trabalho aumentou consideravelmente. Convivemos fortemente com o luto das pessoas, nossos parentes, amigos, funcionários e membros de nossas comunidades religiosas. A violência aumentou contra as minorias e os mais frágeis: as violências perpetradas contra mulheres, pobres, negros, indígenas, homossexuais, crianças, jovens e idosos” (Análise de conjuntura da Equipe Interdisciplinar da Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB).

Sem querer apresentar todas as demandas, e ao mesmo tempo, dizer qual seria a mais emergencial, penso que uma delas, diz respeito diretamente a nossa vida consagrada e à Igreja, à imagem que temos de Deus e de Jesus Cristo.

Hoje, nossa sociedade vive numa profunda crise de sentido espiritual. Confundimos a imagem de Deus. O Deus do Evangelho foi substituído por um deus imaginário, dos interesses pessoais. O Deus de Jesus Cristo foi trocado pela imagem do Deus do Antigo Testamento, o Deus da guerra, da força, da conquista, acima de tudo e distante. Diante de tudo isso, quem é Deus? Quem é Jesus? Esta é a grande preocupação do Evangelho de Marcos.

Temos visto muita gente de fé, enganada e perdida. O Evangelho de hoje (Mc, 8,27-35) nos deixa claro que Jesus quer que o sigamos sem ilusões, na Verdade. Quem sou eu? Depois de tantas respostas dadas pelo povo, Pedro acerta na fórmula, mas erra no conteúdo. Esperava um Cristo cheio de poder, e Jesus se apresenta como aquele que dá a vida, que serve, que ama. Diante da teologia da prosperidade, do lucro, do uso da imagem de Deus, temos uma missão bonita para o interior de nossas comunidades religiosas e para a missão no mundo: ajudar as pessoas a compreenderem que Jesus veio para servir e dar a vida para nos salvar.

O Documento de Aparecida quando define as funções na Igreja, diz que todos somos discípulos missionários de Jesus: o Bispo é discípulo-missionário de Jesus Cristo Sumo Sacerdote; o padre é discípulo-missionário de Jesus Cristo Bom Pastor; o diácono é discípulo-missionário de Jesus Cristo Servidor; o leigo é discípulo-missionário de Jesus Cristo Luz do Mundo e os religiosos são discípulos-missionários de Jesus Cristo Testemunha do Pai.

Ser testemunha não é apenas aquela que vê, experimenta, conhece, ouve, mas, aquele que se envolve com o fato acontecido e o representa diante das pessoas. A vida consagrada precisa sempre ser reflexo de Jesus no mundo. Quando olharem os consagrados, precisam reconhecer Jesus neles. Por isso, os votos religiosos nos indicam que precisamos:

a) Estar bem perto de Jesus: como os discípulos seguiam. Jesus nos ensina que nossa missão é libertar as pessoas da escravidão, do sofrimento e do espírito do mal. Mas só conseguiremos no Espírito de oração (bem perto): a oração nos aproxima de Deus. Na oração, descobrimos o amor de Deus e o amor é a fonte de toda nossa vocação. Caros religiosos (as), saber-se e sentir-se amado por Deus é o que dá sentido ao que somos e fazemos. Da oração nasce a fascinação, o apaixonamento.

b) Ser fascinados por Jesus: Os religiosos se fascinaram, foram atraídos por Ele. Por isso, não perdem o entusiasmo, a alegria de seguir Jesus, cultivando a proximidade com Ele. Se perdem o entusiasmo, ficam tristes e não atraem mais ninguém para fazer a bela experiência da vida religiosa. Religiosos, não se cansem de sonhar, de transformar, de incomodar. Quem deixa de sonhar fica velho. O fascínio por Cristo nos leva a criatividade transformadora. Porém, o amor por Cristo nos leva a fidelidade e a perseverança. Vivemos num tempo onde tudo é passageiro e sem compromisso. O Espírito de Deus pede que perseverem e ajudem a transformar. Deste apaixonamento, nasce o testemunho.

c) Fazer nascer o testemunho: o documento de Aparecida nos diz que a Vida Religiosa tem como missão ser Discípulos-Missionários Testemunhas do Pai. O Papa Francisco disse uma vez aos consagrados, que deveriam ser testemunhas reais pelo modo diferente de ser e agir, - e continua o Papa -, nem sempre é fácil, por causa de nosso pecado, mas reconhecer a fraqueza, pode ser também um testemunho de humildade. Para ser testemunha, é preciso, ver, ouvir, se aproximar, conhecer, amar. Fazer a experiência de estar com. Por isso, a vida religiosa sempre foi testemunho de Cristo a partir da periferia, do deserto e da fronteira. O mundo de hoje clama pelo testemunho dos consagrados (as). O mundo precisa da alegria verdadeira dos religiosos (as). Vida Consagrada é um dom do Espírito, dado à Igreja pelos carismas e serviços. A fonte é a Trindade Santa, o desafio é a história e a resposta é a presença dos Consagrados(as) atuando no mundo.

d) Enfrentar as frustrações e tomar cuidado com as seduções do mundo que vêm disfarçadas em aburguesamento, comodismo e o fechamento em si mesmo. Por outro lado, é preciso vencer o ativismo, que faz perder a essência do ser consagrado e o pessimismo, que é fruto da anemia espiritual. Por fim, cultivar a essência da vida religiosa apresentada a nós pela coragem de enfrentar tudo em vista da construção do Reino de Deus.

Que Nossa Senhora Aparecida, a consagrada do Pai, nos anime a ser cada dia mais felizes e seguidores de Jesus, anunciando o seu reino de amor. Amém.

Dom Manoel Ferreira dos Santos Junior, MSC
Bispo Diocesano de Registro