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Reflexões Temáticas › 10/06/2021

José de Nazaré, pai na acolhida

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

Ilustração: ‘La Sacra Famiglia’ di Cesare Mariani – Basílica de Santa Maria Imaculada (Gênova – IT)


“O acolhimento de José convida-nos a receber os outros, sem exclusões, tal como são,
reservando uma predileção especial pelos mais frágeis, porque Deus escolhe o que é frágil (1Cor 1,27)
é «pai dos órfãos e defensor das viúvas» (Sl 68,6), e mandar amar o forasteiro.
Posso imaginar ter sido do procedimento de José que Jesus tirou inspiração
para a parábola do filho pródigo e do pai misericordioso”. (Lc 15,11-32)
(Papa Francisco – Patris Corde)

Se existe uma atitude de vida que pede o resgate de sua profundidade e seu poder evocativo original é a da acolhida. É um dos termos bíblicos mais ricos, que nos ajuda a aprofundar e aumentar a compreensão sobre a relação com nossos semelhantes. Por isso, buscamos inspiração no modo original e criativo de ser presença acolhedora na pessoa de São José.
Na parábola citada pelo Papa Francisco, fica claro que o conceito de acolhida implica necessariamente a atitude de “ter coração”, expresso nos gestos de escuta, paciência, dom e paz. Portanto, um modelo de espiritualidade que se converte numa disposição interior para perceber, a partir de dentro, as angústias das pessoas. O sentimento que inspira e ilumina a acolhida é o da compaixão, pois não se trata de “dar coisas” mas deixar-se “afetar cordialmente” pela situação do outro.
Tudo isto vem a dizer a todos nós que não é suficiente encontrar com os outros só para um serviço útil e parcial, mas é preciso investir a nossa própria vida na proximidade viva, no compromisso solidário, em colocar-nos à disposição para ajudá-los a ser o que verdadeiramente são, o único caminho para a humanização.

Trata-se, pois, de nos perguntar o que significa hoje ser e trabalhar no Reino, partindo do fato de que no coração do seguimento de Jesus não há – e não pode haver – só um serviço, mas um encontro, rico em assombro e fascinação.
O contexto social pós-moderno nos coloca numa situação que acaba atrofiando este impulso tão humano da acolhida; aqui podemos indicar algumas características próprias de nosso tempo que complicam de modo peculiar a vivência desta virtude: as dificuldades que o ser humano atual tem para abrir-se e escutar uma voz diferente da própria, bem como uma disfarçada resistência para acolher a grandeza do mistério do outro que vem ao seu encontro; há um medo generalizado do outro, do diferente… e as casas se tornaram verdadeiras fortalezas, cercadas de parafernália eletrônica de segurança.

No entanto, a virtude da acolhida é um modo de proceder característico do seguidor de Jesus: “quem acolhe a um destes pequeninos é a mim que acolhe”; implica a capacidade de abertura e acolhida daquele que vem de “fora”, o estranho, o diferente…
A acolhida é uma das múltiplas manifestações da capacidade de amar. O amor verdadeiro se exprime, sobretudo, através de uma relação em que o outro é acolhido como próximo.
A acolhida se apresenta como um valor humano e espiritualmente vital, conectado, ao mesmo tempo, com a vulnerabilidade de cada um que sempre requer ser acolhido e aceito, que sempre precisa encontrar espaços humanizadores de convivência e comunhão.

Essa relação de acolhida supõe abrir-nos de verdade à realidade do outro, sem reduzi-lo às nossas projeções, nem submetê-lo às nossas categorias mentais, sem anular seu mistério e contando com o imprevisível, com o inesperado, com o radicalmente novo; em definitiva, com o que supera o plano das nossas expectativas. Receber as pessoas com atenção, escutá-la, pode ser uma ocasião para receber a única coisa verdadeiramente necessária. A acolhida implica uma integração entre escuta e serviço.
Por isso os pobres são especialistas em hospitalidade e acolhida.

Como homem e como mulher trazemos esta força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar   laços, construir fraternidade, acolher o diferente, fortalecer a comunhão. O olhar do outro é o fato originante da fraternidade. No encontro com o outro temos uma oportunidade única de encontrar-nos a nós mesmos.

O ser humano está comprometido com os outros; por sua própria natureza, ele se torna pessoa humana somente em interação com os outros; ele possui impulsos naturais que o levam em direção ao convívio, à cooperação, à comunhão…; ele é reserva de humanidade e compromete-se com a dignidade humana.
Cada pessoa está sempre em contato com o “outro”. E o outro é pessoa. O outro revela certa magia, ao mesmo tempo sedutor e enigmático. O outro é plural, apresenta múltiplos rostos; é diferente, inédito…
Num mundo em que a competência se degenera em competitividade sem limites, e em que o individualismo e a falta de solidariedade criam novas fronteiras e exclusões, é preciso recuperar o discurso e a prática do “ser-para-os-outros”, o saber e o agir como serviço, a solidariedade, a compaixão, a partilha, o perdão, a gratuidade, a acolhida, o dom de si mesmo, o amor…

A experiência de viver permanentemente sob o olhar compassivo de Deus permite descobrir que “o ser-com” e “o ser-para” é a autêntica condição humana que se desloca em direção ao outro, na arte de deixar e abrir lugar ao excluído, ao estranho, ao “sobrante”…
A acolhida implica também iniciativa de sair do próprio “lugar” e mergulhar no lugar do outro.
Essa “travessia” não é apenas geográfica; trata-se de uma experiência que requer a atitude de abrir-se ao outro como diferente; e isso implica em “passar” para o seu lugar, aprender a ver o mundo a partir de sua perspectiva, deixar-se questionar e desinstalar-se pelo outro, despojado da condição de pessoa.

A acolhida alimenta coragem de romper as fronteiras do preconceito, da indiferença e da intolerância; ela impede que as fronteiras se transformem em frias barreiras, ou seja, distância e negação do outro.
Esta capacidade humana de encontrar o outro, entrar na vida do outro e deixar que a própria vida seja questionada pela presença do outro é a qualidade maior daqueles que alargam sua acolhida e não se deixam dominar pelo medo e pela suspeita.

A acolhida também nos leva a reconhecer no outro (sobretudo o outro que é excluído, marginalizado…) uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação; ela gera protagonismo e nunca dependência; compartilha sem humilhar; cria humanidade em seu entorno, com generosidade, humildade e silêncio; supera todo exibicionismo, sentimentalismo ou instrumentalização do outro.
A diaconia (serviço) da acolhida é um movimento que vem de dentro da pessoa e se estende no vaivém das relações humanas mais distantes e mais próximas. É abertura e disponibilidade àquele que interpela as suas convicções, seu modo rotineiro e estreito de viver.
Só quem tem coração dilatado vive a acolhida como surpresa provocativa.
A acolhida é antes de mais nada uma disposição da alma, aberta e irrestrita. Acolher o outro significa multiplicar a alegria do encontro, da novidade e da partilha… enfim, da vida.

A acolhida vivida por São José nos revela que Deus nos convoca a “fazer estrada” com Ele, a viver um êxodo permanente, gerando-nos continuamen-te para a responsabilidade como pura gratuidade e generosidade.
O “modo de proceder” de S. José nos faz compreender a acolhida como hábito do coração; não é um evento, um ato isolado; ela fermenta, dá calor e sentido ao nosso cotidiano e se encarna nos pequenos gestos de inclusão. Importa “re-inventar” com urgência a acolhida como valor ético e como atitude permanente de vida.

Textos bíblicos: Mt 1,18-25 / Gen 18,1-15 / Lc 15,11-32 / Mc 9,33-37 / Lc 10,25-42 / Jo 12,1-11

Na oração: Continuamente nos deparamos com um Deus que chega gratuito e imprevisível em nossa vida, suplicando acolhida. Quando Ele é acolhido, nossa cotidianidade se converte em milagre.
— na relação com os outros, quê lugar ocupa a acolhida em sua espiritualidade e em seu ministério cotidiano?

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