A CRB-SP foi convidada a participar do I Seminário de estudos espaço mulher 2015, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, Auditório Teotônio Vilela no último dia 27. Segue o discurso proferido em nome de toda a Vida Religiosa do Regional.

Caras Senhoras, (es) representantes de organismos diversos, importantes e produtivos em favor dos diretos das mulheres e relações paritárias; agradeço o convite efetivado através de D. Elisabeth Mariano, permitindo a realização desse evento, e ainda do apoio parlamentar, certamente necessário, do Exmo. Deputado Estadual Padre Afonso Lobato.

Falo como representante da Conferência dos religiosos do Brasil, regional São Paulo, órgão representativo dos quase dez mil religiosos e religiosas no Estado, tendo a função de animar, coordenar, encorajar assessorar e auxiliar na formação de todos (as) que necessitam, seja em caráter primário, o que chamamos de formação inicial, seja na posterior formação continuada, necessárias para o aprimoramento pessoal e institucional.

Para aquilatar devidamente o local que nos abriga e os de desafios já aqui apresentados, recordo: Nossa memória recente nos obriga a reconhecer que, especialmente no Ocidente, a mudança de século, acompanhada pela consequente mudança de milênio, trouxe consigo a preocupação, a possibilidade e, sobretudo a necessidade de uma pauta referencial obrigatória, significativa para o futuro da humanidade, que segundo especialistas, acelera sua extinção, depois de bilhões de anos em processo de criação. Parte dessa reflexão, com tomada positiva de consciência sobre a grave responsabilidade de todos, incluiu temas vinculados à ecologia, o uso adequado e inteligente dos limitados bens da natureza; do cuidadoso progresso ético obrigatório às ciências, especialmente nas áreas da biologia e genética; sobre a importância de preservar a cultura, línguas, crenças e as manifestações próprias de raças diferentes, visando preservar a diversidade humana e ainda sobre os direitos de todos os povos ao acesso à água, alimentação, lazer, vida digna, trabalho, educação, participação política etc.

Naturalmente incluíram-se também tópicos agregados à capacidade violenta, mortal e agressiva dos que propõem múltiplas formas de dominadores terrorismos; a irrelevância da vida humana, em relações destrutivas dentro dos lares, nas culturas, religiões e povos distintos, entre os grupos organizados e classes sociais; sobre o gravíssimo problema das drogas (lícitas ou não); o vergonhoso tráfego humano e de órgãos; as forçadas migrações motivadas pelo horror das guerras, o crescente feminicídio, e ainda as condições sub-humanas a que são submetidas sistematicamente, crianças, idosos e mulheres.

Sem voltar ao Primeiro testamento, o Papa Francisco tem tratado magistralmente dessa parte, quero referendar, a contribuição histórica que o Cristianismo, através da pregação e prática do Evangelho, efetivou em favor desse último grupo. Não é transparente verdade a forma como Jesus se importou com as mulheres em sua época? Alguns relatos expressivos como a adultera Jo 8, 3-4; sua conversa com a Samaritana Jo 4,1-20, a pecadora redimida em Lc 7, 37-42; o relacionamento produtivo com Marta e Maria Lc 10, 38-42, a importância dada à viúva de Naim Lc 7, 12-14, para a filha de Jairo, a ousada mulher hemorroíssa, Lc 8, 40- 56, ainda e sobretudo no ato de eleger mulheres, como as primeiras testemunhas da ressurreição, Mc 16, 1-9, corroboram tal afirmação.

Além da pessoa e das ações proféticas de Jesus, na maior parte dos empreendimentos na história da evangelização, do compromisso dos evangelizadores e evangelizadoras, utilizaram um estilo feminino de evangelização como afirma o Papa no texto “EG288” recordando a sensibilidade, cuidados, a ternura , a constante preocupação em fazer uma caminhada que possa expressar fidelidade na “contemplação e na ação”, assistidos pela maternal proteção de Maria mãe de Jesus e de Todos os povos, valorizando incorporando a riqueza do vasto universo feminino, em um contexto eclesial marcadamente masculino, comprovadas em muitas ações de cuidados, como em minha recente visita ao museu indígena Salesiano existente em Campo Grande, tarefa bem cumprida de preservação.

As condições gerais, que desde sempre provocam fragilidades, vergonha e perda da dignidade próprias das mulheres, têm recebido atenção e apoio da Igreja Católica, não somente através da criação e manutenção dos Institutos, as Ordens Religiosas e as Congregações Femininas, que há muito enriquecem a Igreja com seus carismas diversos para o dedicado e necessário serviço à humanidade, mas também em pronunciamentos contundentes, como na Carta Apostólica de São João Paulo II “Sobre a dignidade da Mulher” (1988), antecedendo profeticamente no tempo a “Declaração e Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial Sobre a Mulher” - Pequim, 1995, hoje revalorizadas. Ambas certamente desejando expressar o fim de toda situação discriminatória, para essa imensa, valiosa, representativa e imprescindível parte da humanidade, revalorizada na EG 103. “A Igreja reconhece a contribuição indispensável da mulher na sociedade, com a sensibilidade, intuição e certas capacidades peculiares que lhes são características”.

O eventual índice de credibilidade dos organismos eclesiais que hoje se expressam nas distintas nações que compõem a América Latina, que alcançam os índices de 65% foi conquistado à custa de muitas e dedicadíssimas vidas de homens e especialmente de mulheres, que superaram discursos a fim de se empenharem numa prática fraterna e libertária produzida através de vínculos solidários, proféticos visando à construção de uma sociedade igualitária onde: complementamos-nos mais que nos exploramos, nos “unificamos” mais que nos marginalizamos, nos compreendemos mais que nos estranhamos, investimos em ações comuns mais que competimos; finalmente nos sentamos íntegros à mesa da grande celebração das diversidades, mais que nos envergonhamos do vazio banquete de alguns, entregando migalhas a outros.

Desejo recordar que a violência da entrega apenas das migalhas não é metáfora em nossa sociedade, onde atualmente apenas 7% das mulheres conquistou a ocupação cargos administrativos e de direção das empresas, se constata a necessidade de ainda oitenta anos para uma paridade significativa, quatro gerações pelo menos, conviverão com essa situação desafortunada. Nesse dia em que nos encontramos, que também é dedicado a valorização de quem sobrevive como doméstica, conforme o calendário civil, convém lembrar os muitíssimos embates dessa categoria, buscando condições mínimas e reconhecimento do valor de seu trabalho assim como semelhantes categorias laborais.

Igualmente, para a população dedicada de sacerdotes, religiosos e especificamente as religiosas que no Brasil chegam a trinta e seis mil, entregando suas vidas, até os limites de todas as suas forças em múltiplos afazeres nos meios de comunicação, nas creches, hospitais, escolas, asilos para idosos, abrigos manicomiais para as vítimas de doenças mentais, as casas de abrigos às crianças violentadas, mulheres e refugiados em situações de risco, aos que acolhem alcoolistas e “droga adictos” com suas consequências terríveis, às que se encarregam do atendimento a moradores de rua, a todas (os) também restam as migalhas desse estado que é o mais rico da nação, narcisicamente embelezando suas cidades, sem efetivar, de maneira organizada, o necessário socorro aos pobres cidadãos.

Cumpro a tarefa feliz de agradecer todos os benefícios bem empregados em favor das Congregações, ordens e institutos religiosos femininos que na área educativa, instituições educacionais que somente nessa região chegam a trinta, na grande cidade às centenas se somados; aos hospitais desde os mais expoentes como o Santa Marcelina, que unidos às pequenas clínicas, também vão às centenas. Nesse povoado Estado, a contribuição feminina é significativa, entretanto preciso partilhar que muitas vezes, faltando o devido apoio, estão relegados às situações apenas suportáveis em função do altruísmo inerente e voluntarioso. Repasses insuficientes comprometem obras idealizadas para manifestar a caridade da Igreja, e o compromisso social enquanto se questionam como mantê-las?

Faz-se imperativo neste dia especial pedir a Deus, o Pai comum da nossa grande família humana, que nos abençoe de maneira muito especial; que essa bênção produza sabedoria nos permitindo retornar às sendas da sobriedade no uso das verbas públicas, o equilíbrio nas relações entre homens e mulheres, o reconhecimento do valor infinito de todas as formas de vida que precisam ser defendidas e priorizadas, sobretudo que nos devolva a lucidez de que não haverá paz sem justiça, educação, saúde, moradia, respeito mútuo, segurança e a consciência de que sofremos as mesmas dores e necessidades.

Que este espaço privilegiado, onde nos encontramos com pessoas empenhadas na causa do bem comum, mantenha fidelidade à vocação inicial defendendo o direito de muitas a fim de que os detentores quaisquer benefícios particulares, não se sintam ameaçados, possam dele gozar sem os constantes temores oriundos das desigualdades, dos poderes paralelos existentes no tecido social e no desamparo pessoal que a Igreja, cumprindo um de seus mais importantes papéis, procurou ao longo da história e o desenvolvimento desse país por caridade e senso de justiça fraterna cumprir.

Pe. Rubens Pedro Cabral, omi